Quem sou.(não-ser)
Sou água em ebulição abaixo de zero.
Sou calmaria em plena tempestade,
Os arrecifes de um porto seguro,
Sou o gato sem a curiosidade.
Sou a lógica do pintor,
O ódio cercado de amor.
Sou o silêncio durante o debate,
O frio na estação do calor.
Sou língua doce em boca amarga,
Folha parada na ventania.
Sou o desvio do caminho reto,
O passado que chegará um dia.
Na discussão, sou mansidão,
No abstrato sou o concreto.
Sou o que te abandona e o que te dá a mão.
Sou a superfície mais profunda,
A necessidade que abunda,
O abraço da rejeição,
Um puro pedindo perdão.
Sou infinito com prazo de validade.
Em meio à infância, sou maturidade.
Sou aqui enquanto lá,
Um beija-flor a pousar.
Como diria o baiano, sou o contrário do contrário,
O verso do reverso,
O início do fim que acabou de começar,
O enfarte do coração que não para de pulsar.
Sou a miscelânea de um só ser,
Sou a multidão de um ser só.
Sou a dúvida da certeza,
O impulso que faltava,
Sou a página virada,
A inspiração do poeta que se foi.
Sou carinho em noite triste.
Sou aquilo que sempre foi e hoje não mais é.
Sou a mulher que engole o homem,
O homem que te faz mulher.
Sou a noite, sou o dia, a idiossincrasia,
O início ou o fim de mais uma poesia...
César W. B. de Souza